Rádio Sociedade do Rio de Janeiro
- bastidoresdasradios

- 5 de nov. de 2021
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Instalada na Praia Vermelha, especificamente no prédio da Escola Polytechnica – atual Universidade Federal do Rio de Janeiro –, a primeira estação de rádio teve vida curta e funcionava de forma intermitente, com transmissões irregulares.
A primeira estação de transmissão de rádio efetivamente constituída no Brasil apareceu sete meses mais tarde, em 20 de abril de 1923, quando foi fundada a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro; uma iniciativa pioneira do médico legista, professor e pesquisador Edgard Roquette-Pinto e do cientista francês Henri Charles Morize – Henrique Morize –, então presidente da Academia Brasileira de Ciências. Foi a partir dessa iniciativa que efetivamente se iniciou o rádio no Brasil. A ação de constituir uma emissora com transmissões regulares no País foi um desafio aceito pelos cientistas que, a partir das ondas radiofônicas, passaram a se dedicar à produção de conteúdo de relevância nacional, com características marcadamente educativas. Ou seja, quando o rádio surgiu no Brasil já carregava, por iniciativa de seus realizadores, a função de ser um veículo de educação, informação.

Jornal TSF sobre a inauguração da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro
Em seus discursos, Roquette-Pinto sempre reforçava o caráter educativo do Rádio no Brasil e, em particular, de sua rádio:
O rádio é a escola dos que não têm escola. É o jornal de quem não sabe ler; é o mestre de quem não pode ir à escola; é o divertimento gratuito do pobre; é o animador de novas esperanças, o consolador dos enfermos e o guia dos sãos – desde que o realizem com espírito altruísta e elevado.
E sempre concluía as suas falas com a frase que se tornou o lema de sua rádio: “Pela cultura dos que vivem em nossa terra. Pelo progresso do Brasil”. A Rádio Sociedade – atual Rádio MEC, após ter sido doada por Roquette-Pinto ao, então Ministério da Educação e Saúde, em 1936, no governo de Getúlio Vargas – é a rádio mais antiga em funcionamento no País e se destaca como um dos principais veículos de comunicação do Brasil, especialmente no que se refere à educação.

Foi palco privilegiado para grandes momentos da literatura e da música brasileiras, tendo passado por seus estúdios poetas como Cecília Meirelles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade; cantores e percussionistas como Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho, Villa-Lobos, Francisco Mignone e Radamés Gnatalli.

A partir da experiência da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, iniciou-se a criação de diversas emissoras ao redor do País, tal como aponta Gisela Ortriwano (1985), dando início ao que se convencionou chamar de primeira fase do rádio no Brasil, caracterizada pela estrutura organizacional das pioneiras emissoras do País, constituídas em torno de “sociedades” e “clubes”.
Nessas emissoras, espécies de entidades coletivas financiadas com dinheiro de seus instituidores, o veículo sonoro não passava de mera curiosidade, não se constituindo ainda com recursos narrativos, estilísticos ou de linguagem próprios. Imperava em sua programação uma característica amadora, cujo conteúdo refletia os interesses de seus financiadores.
Podemos dizer que durante a primeira fase do rádio, o veículo não apresentava características próprias do jornalismo, vislumbrando-se como instrumento a serviço da informação coletiva de seus ouvintes. O público era restrito a poucas pessoas, notadamente uma elite intelectual que possuía poder econômico suficiente para arcar com as despesas de constituição das emissoras e compra dos aparelhos receptores, usando o rádio como instrumento de propagação de suas ideias.
Ainda nascente, o jornalismo realizado pelo veículo sonoro nessa primeira fase do rádio no Brasil se estruturaria em torno de estratégias particulares de seus proprietários, embora imbuídos de um espírito altruísta, em torno de seus critérios de noticiabilidade.
Um dos casos mais clássicos de um “método” de realização jornalística no rádio é o que se convencionou chamar de “caneta vermelha” de Roquette-Pinto (PAGNO, 2015, p. 22): o fundador da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro lia os jornais diariamente, grifava as notícias mais relevantes com uma caneta vermelha e se sentava em frente ao microfone da emissora, lendo e comentando as notícias dos jornais impressos. Não havia abordagem destinada especificamente ao veículo, menos ainda uma estratégia própria para noticiar adequadamente, ao veículo sonoro, as informações jornalísticas.
O jornalismo sonoro realizado nesse período era basicamente o impresso, que já se desenvolvia no País desde o Correio Brasiliense, primeiro jornal nacional, produzido por Hipólito José da Costa, brasileiro exilado em Londres. O jornalismo apenas ganharia contornos próprios na segunda fase do rádio, que se iniciou com a destituição das sociedades e dos clubes por conta da chegada da publicidade ao veículo sonoro – tal como veremos a seguir.
Hipólito José da Costa lançou o jornal Correio Braziliense em 1 de julho de 1808, podendo ser considerado o primeiro jornal brasileiro, apesar de impresso fora do País, por conta do exílio de Hipólito. Editado mensalmente, o jornal era impresso em Londres e trazido clandestinamente ao Brasil por meio de viagens de navio – operação que demorava quase um mês. O Correio Braziliense era um jornal que atacava os defeitos da administração do Brasil.
Considerando que a “caneta vermelha” de Roquette-Pinto foi uma estratégia desenvolvida pelo dono da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro para realizar, nessa emissora, uma atividade “jornalística”, é possível aplicar algum conceito contemporâneo de noticiabilidade ao artifício realizado por esse diretor?





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