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Eu nasci pirata e vou morrer pirata

  • Foto do escritor: bastidoresdasradios
    bastidoresdasradios
  • 11 de nov. de 2021
  • 14 min de leitura

Relatos de Francisco Noronha Moreira sobre suas experiências com as rádios livres sorocabanas Strick Som FM e Ocidental FM.

As rádios livres são emissoras independentes administradas por amadores que assumem o papel de programadores, locutores ou DJ’s. Tal tendência adquiriu popularidade no município paulista de Sorocaba e, no começo da década de 1980, a cidade possuía mais de 40 rádios livres no ar. A importância dessa ação é descrita em livros, teses e dissertações. Contudo, ainda há muito o que se descobrir sobre essa temática, como a atuação desses realizadores e o posicionamento político dessas emissoras. Nesta entrevista, Francisco Noronha Moreira revela suas experiências quando era membro da Conexão Jovem, uma rede de radiodifusão composta pelas rádios livres sorocabanas Strick Som e Ocidental



Francisco Noronha Moreira (foto) é técnico em mecânica e desempenhou um papel ativo no movimento das rádios livres de Sorocaba de 1982 a 2006. No comando da Conexão Jovem composta pelas rádios Strick Som 97,5 FM e Ocidental 102,9 FM, o sorocabano levou música e entretenimento para público jovem.


Foram 24 anos ocupando o espaço eletromagnético de forma irreverente e criativa. As rádios livres são emissoras de rádio geridas por pessoas comuns. Em outras palavras, são rádios operadas por amadores, e não especialistas. Tal tendência chegou na cidade de Sorocaba (SP) em meados de 1976. Geralmente, as rádios livres sorocabanas eram propriedade de jovens descontentes com a programação das rádios comerciais FM.


Em pouco tempo, essa atividade ganhou popularidade. No verão de 1982, o município contava com mais de 40 rádios livres operando frequentemente nos mais diversos horários. Diante do fato, é possível verificar que essas emissoras, também consideradas como clandestinas, ilegais e piratas, contribuíram efetivamente para o desenvolvimento da comunicação radiofônica no Brasil (MACHADO; MAGRI; MASAGÃO, 1986).


Nota-se ainda a necessidade de uma investigação mais detalhada sobre essas emissoras da Cidade de Sorocaba, que está sendo feita por meio da coleta de depoimentos dos participantes desse movimento. Esse relato procura auxiliar a atual produção acadêmica sobre as rádios livres sorocabanas, assim como busca construir um panorama a respeito dessas emissoras radiofônicas consideradas clandestinas, ilegais e/ou piratas, do interior de São Paulo. Tal esforço também procura preencher lacunas deixadas pelos estudos que pesquisaram a memória do rádio no Brasil.


A entrevista com o Francisco Noronha Moreira, foi realizada por Felipe Parra na cidade de Sorocaba, em 13 de abril de 2019. Eminentemente, busca-se resgatar e/ou revelar algumas nuances sobre a temática por meio de perguntas semiestruturadas. O intuito desta entrevista se concentra em registrar relatos que ajudem a traçar um panorama a respeito desses meios de comunicação alternativos.


(1) Gostaria de saber um pouco sobre você e como foi sua experiência com as rádios livres sorocabanas.


FRANCISCO NORONHA MOREIRA (F.N.M.): Sou o Francisco Noronha Moreira, sorocabano e técnico mecânico. Quando tinha minha rádio, era mais conhecido como Strick Som. Todo dono de rádio pirata em Sorocaba naquela época era conhecido pelo nome da sua rádio. Como a minha rádio se chamava Strick Som, meu codinome se tornou esse.

Basicamente a rádio começou em 1982, na Vila Hortência, Zona Leste de Sorocaba. De forma bem simples, a emissora começou com transmissores caseiros, operando em baixa potência. A partir daí foi evoluindo tanto a potência dos transmissores como a forma de transmitir e a aparelhagem de som. Foi um crescente até o ano 2006, quando a rádio parou as atividades.


(2) Na reportagem da revista Veja Interior-SP (1991, p. 5), o nome da rádio está escrito como Strike Som. Foi uma confusão que fizeram?


F.N.M.: A palavra Strick Som foi inventada por mim. Muitas pessoas falavam Stricke Som e eu sempre as corrigia falando Strick Som. De qualquer forma, a rádio ficou bem conhecida em Sorocaba por Strick Som mesmo. A rádio tinha um esquema que chamávamos de Conexão Jovem. Na verdade, eram duas rádios, uma transmitindo a outra. Eram duas rádios trabalhando juntas com uma programação destinada ao público juvenil.

As rádios nunca foram feitas para pessoas revolucionárias no sentido político. Era a voz do jovem no espaço eletromagnético.


(3) E quais eram essas duas rádios conectadas?


F.N.M.: A Strick Som 97,5 FM e a Ocidental 102,9 FM, do meu amigo Gladson. Saíamos fazendo várias entrevistas. Nos anos 80, começamos a fazer os transmissores de forma caseira. Íamos para São Paulo, na Santa Ifigênia, ou aqui em Sorocaba mesmo, na Rua Sete de Setembro. Comprávamos as peças e nós mesmos montávamos antenas e transmissores. A potência era bem pequena, pegava em um ou dois bairros. Depois isso foi evoluindo, a aparelhagem foi melhorando, começamos a atingir outros bairros e, com isso, a audiência aumentou muito. Em 1985, completei 18 anos e comecei a trabalhar. Nessa época, tinha um horário muito complicado e, ao mesmo tempo, não queria abandonar a rádio. Era necessário deixar a rádio no ar quando entrava o programa A Voz do Brasil , pois 3 era o horário que a rádio tinha maior audiência. Porém, não tinha como sair do trabalho e ir em casa operar a emissora. Para solucionar isso, gravava a programação em um gravador de fita K7. Então, eu deixava todo o equipamento pronto para funcionar quando fosse conectado à rede elétrica. Quando faltavam dez minutos para A Voz do Brasil, eu ligava do serviço para minha mãe e ela ligava o equipamento na tomada. Feito isso, a rádio entrava automaticamente no ar tocando a música. É claro que a rádio demorava aproximadamente cinco minutos para estabilizar o sinal. Eu usava fitas K7 de 90 minutos para fazer toda a programação. Com esse tempo, conseguia cobrir o horário do programa A Voz do Brasil e sobravam ainda mais 15 minutos. Esse material era gravado durante o dia. Basicamente, a grade de programação da rádio era composta de músicas e vinhetas que eu mesmo fazia. Tinha até uma vinheta de encerramento das atividades da rádio. Era interessante, pois do meu trabalho eu ouvia a minha rádio enquanto passava A Voz do Brasil em outras emissoras. Para fazer essas vinhetas era bem trabalhoso. Eu gravava a voz, colocava um pequeno papel no cabeçote de gravação de fita K7 e gravava a voz novamente. O processo era repetido várias vezes para conseguir o efeito de eco. Não tinha outros recursos digitais. Hoje tudo é muito fácil com a utilização do computador, mas na época a mixagem, a equalização, tudo era feito na raça. Uma forma criativa e alternativa de se fazer rádio.


(4) Você ainda possui essas fitas K7?


F.N.M. : Eu tenho algumas gravações de vinhetas e entrevistas, mas a maioria do material se perdeu com o tempo. Era a vontade de fazer rádio mesmo sem estar na rádio.


(5) Como que a Revista Veja Interior-SP chegou até você para te entrevistar?


F.N.M.: Por volta de 1988, a rádio ficou bem conhecida, a programação da Strick Som começa a sortear lanches e brindes. Começamos a fazer adesivos e camisetas com o logotipo da rádio. A avenida Juscelino Kubitschek, onde os jovens se encontravam para conversar, era nosso ponto de referência para fazer pedágios e entrevistas. Alguns trabalhos que fizemos ganharam bastante destaque. Como a Conexão Jovem era composta também pelo Gladson e o Eduardo Lopes, tínhamos uma boa equipe para fazer entrevistas diferentes. Com um gravador de bolso, começamos a ir em prostíbulos e entrevistar as meninas. Em outros momentos, íamos à Avenida General Carneiro entrevistar os travestis que faziam ponto na cidade de Sorocaba. Gravávamos esse material e montamos um programa chamado Hora do Sexo. Basicamente, esse segmento da rádio consistia em relatos de pessoais desses profissionais do sexo. Os temas variavam de experiências homossexuais até uso de drogas. Foi uma atividade que ganhou muita popularidade. O público começou a telefonar para rádio pedindo que ficássemos mais tempo no ar. Era o telefone da casa da minha mãe, de uso doméstico, não era nada profissional. Divulgávamos o número por meio de códigos. Durante o primeiro bloco da programação, eu falava os dois primeiros números, no segundo bloco mais dois números, e assim por diante. Tinha muito medo da polícia e, por isso, fazia isso. Tinham pessoas que pichavam o nome da rádio em muros da cidade. Era como uma comunidade, por mais que os ouvintes não participassem da programação efetivamente, eles se sentiam parte da rádio. Devido à esse renome que a rádio adquiriu, uma pessoa que tinha muito contato com revistas, rádios, jornais e TVs se tornou muito fã da Strick Som. Ele promoveu vários encontros com esses meios de comunicação da época. Em uma dessas oportunidades, a Revista Veja fez a matéria sobre a minha rádio e a nossa Conexão Jovem. O jornal O Estado de S. Paulo também nos procurou e fez uma matéria conosco. Também fizemos uma entrevista para a MTV. A matéria foi ao ar no dia em que a MTV liberou sinal para a cidade de Sorocaba. O Cazé Peçanha apresentou Sorocaba como a capital das rádios piratas no Brasil. Essa gravação ocorreu no estúdio da Rádio Ocidental, que ficava no porão da casa do Gladson. Apareceram os equipamentos e até a camiseta com o logotipo da rádio. Nós demos essa entrevista de costas para não revelarmos nossos rostos. Porém, isso é uma relíquia que se perdeu. Aliás, muitas coisas se perderam quando eu mudei de casa. Porém, essa época foi muito boa, dávamos festas no Sorocaba Clube. Eram viradas musicais com músicas gravadas e ao vivo.


(6) O que estimulou vocês a criarem o programa Hora do Sexo?


F.N.M.: Acho que foi o impulso da juventude. Queríamos buscar uma coisa nova, diferente. Apresentar aos ouvintes um mundo que ninguém estava mostrando. Era mesmo a ideia de quebrar paradigmas, causar impacto, sair da mesmice. A Hora do Sexo teve influência jornalística de programas como Documento Especial: televisão verdade e do Gil Gomes. Queríamos trazer esse jeito de se comunicar para o nosso público. Pegava essa linguagem investigativa policial e tentava aplicar no contexto de Sorocaba.


(7) Há tentativas de recontar a história das rádios livres sorocabanas que falam sobre um professor de escola técnica que ensinou seus alunos a construir transmissores de rádio (COSTA, 2010). Isso é verdade?


Como vocês tiveram acesso aos transmissores das rádios?


F.N.M.: Não tinha nenhum professor. As pessoas que tinham mais familiaridade com eletrônica passavam esse conhecimento para os mais leigos por meio de esquemas eletrônicos. Não era uma coisa muito difícil de se fazer. Com o decorrer do tempo, eu me interessei em montar transmissores. Comprava as placas, fazia os caminhos, colocava os componentes. Todos envolvidos com as rádios piratas de Sorocaba começaram a fazer isso. Uma espécie de mutirão. O sistema de construção dos transmissores era artesanal. O rádio era um eterno desajuste, então tinha que se virar. Tinha interferências que o rádio provocava na TV. Era necessário reajustar o sinal para retirar essas ondas fantasmas que caiam em frequências que atrapalhavam a televisão. Caso contrário, isso poderia causar reclamações de vizinhos e denúncias. Tinha que entender de rádio, não era só colocar músicas para tocar. Outra particularidade era que muitas rádios não se preocupavam em tocar música, os donos de algumas emissoras se concentravam em conversar por meio do rádio. Essas rádios funcionavam como uma sala de chat. Então, existiam as rádios musicais e rádios de bate papo. Meu foco era tocar música, mas eu batia papo também. Geralmente, essas conversas começavam aproximadamente às 22 horas. O número de rádios que participavam dessa interação variava muito. Uma das rádios era o mestre, que retransmitia todas as outras. A emissora mestra tinha um recurso que conseguia transmitir na frequência dele todas as vozes da conversa. Então, quem ouvia a rádio mestra, conseguia acompanhar a conversa inteira. Eu conseguia ser uma rádio mestra e colocar quatro emissoras no ar. Falávamos muito besteirol, sem questões políticas. O foco era entretenimento. Encarávamos aquilo como uma brincadeira.


(8) Qual era o estilo da Strick Som? Que tipo de música tocava na sua rádio?


F.N.M.: Tinha alguns dias que eu fazia programações diferentes, mas a Strick Som se tornou conhecida pelo estilo dançante, de música eletrônica. Esse era o forte da rádio, 90% da programação era voltada para esse estilo. Tocávamos muitas músicas que faziam parte da programação da Rádio Jovem Pan de São Paulo.


(9) Então, a ideia da Strick Som era trazer o estilo da Rádio Jovem Pan de São Paulo para o contexto de Sorocaba?


F.N.M.: Essa foi a grande sacada da minha rádio. Com uma fala bem alegre, animada. Teve uma fase na Strick Som que comecei a trazer alguns DJ’s para tocar ao vivo, gravar material para a emissora. Muita gente era realmente fã da rádio, pois em Sorocaba não tinha espaço. O público era engajado, e conhecia tanto eu como o Gladson da Rádio Ocidental e o Eduardo Lopes. Contudo, essa exposição começou a ser um fator preocupante. Em meados de 1986, houve alguns problemas internos em uma emissora de TV local. Funcionários insatisfeitos com as políticas da empresa não tinham como comunicar isso para a imprensa escrita. Não sei como, um grupo composto por funcionários dessa TV chegou até minha casa com uma fita K7. O conteúdo gravado era um protesto que reivindicava melhores condições de trabalho, um discurso bem incisivo, defendendo a luta dos assalariados dessa empresa. Eles me pediram para colocar esse material no ar. Como topava tocar de tudo na rádio, não pensei duas vezes. Então, no meio da programação da Strick 5 Som, colocava para tocar aquela gravação. Após uma semana, a Dentel e a Polícia Federal foram até minha casa. Realmente invadiram minha casa e aprenderam a rádio. Lacraram o transmissor, mandaram tirar a antena. Foi uma situação muito complicada, principalmente por causa da ditadura. Porém, eu era menor de idade e a única represália que sofri foi intimidação verbal. Nesse caso, eles viram que era um equipamento caseiro e somente me aconselharam a desligar a rádio permanentemente. Tive que sair do ar por um período. Mas como a vontade de fazer rádio era maior, voltei com a programação normal depois de seis meses. Ter uma rádio pirata era uma atividade que tinha seus riscos. A Dentel passava rastreando e alguns amigos meus também foram pegos. Em Sorocaba era comum a polícia fazer essas buscas e apreensões. O nosso pesadelo era ver a antena da Dentel passando. Era um receio muito grande. Após esse acontecimento, tocava uma música na rádio e ia para a janela do quarto vigiar a rua. Quando as investigações começaram a se intensificar, usava a antena camuflada no telhado para não aparecer visualmente.


(10) Como você fazia isso?


F.N.M.: Geralmente, usava a antena plano terra. Para camuflar a rádio, você usava uma antena direcional. Basicamente essa antena era composta por dois canos de alumínio deitados no telhado da casa. Sem uma haste de sustentação, a antena ficava invisível para as pessoas que passavam na rua. Porém, isso interferia na transmissão da rádio. O alcance da antena plano terra era mais abrangente.


(11) Você conhecia rádios livres fora do Brasil como as italianas, as francesas, entre outras?


F.N.M.: Eu não tinha conhecimento. Dentro de outros estados brasileiros sim, mas fora do Brasil era complicado, pois as informações eram precárias. Naquela época não se tinha uma comunicação como hoje. Contudo, em Sorocaba, sabíamos que existia essas rádios no mundo inteiro. Nós conversávamos muito nos encontros entre os piratas de Sorocaba sobre isso, mas se você perguntar exatamente o nome e o país, realmente não conhecia. Durante essas conversas, falávamos sobre a qualidade de transmissão da rádio. O que primávamos era por um bom sinal. Saíamos de carro pelos bairros de Sorocaba para ver o alcance que a rádio tinha. Ocasionalmente, tinha que fazer alguns ajustes para melhorar o som. Dar um pouco mais de ganho na antena. Era uma busca constante pela excelência da emissora.


(12) Alguns de vocês planejavam entrar para o rádio comercial?


F.N.M.: Sim, eu até fiz o curso de locutor do Senac para tentar trabalhar no rádio comercial.

Fiz testes em várias rádios. Porém, sempre alegavam que minha voz era forçada e sem pausa. Um estilo muito diferente da forma convencional de locução. Em Sorocaba, não tinha esse estilo mais enérgico. Esse jeito de falar no rádio criava um elo com os jovens que ouviam a Strick Som. A linguagem feita para o jovem aliada as músicas que esse público ouvia fez a rádio ganhar muita popularidade. Mas é interessante falar que locutores famosos no rádio comercial de Sorocaba também cursaram comigo as aulas no Senac. Alguns deles fizeram a primeira locução de suas carreiras na Strick Som. Minha rádio abria as portas para pessoas que precisavam falar no rádio, que queriam protestar, DJ’s que não tinham espaço no rádio comercial para mostrar o seu trabalho. No programa Hora do Sexo, dei voz a uma parte da sociedade que é marginalizada até hoje. Existia uma censura muito grande e nós da Conexão Jovem não tivemos medo em mostrar. Claro que o estilo da emissora não mudou. Era sempre voltada para a música e o público jovem.


13) A matéria do jornal O Estado de S. Paulo (TOMAZELA, 1991) abordava, entre outros assuntos, a música chamada Melô do Ricardão. Você poderia falar um pouco a respeito?


F.N.M.: A rádio livre/pirata, não tinha muito pudor. Como a intensão era tocar coisas diferentes, nós tocávamos uma música chamada Melô do Ricardão. Gravamos essa música de uma emissora de São Paulo e colocamos na nossa programação. Nas rádios de Sorocaba não tocava essa música, pois ela tinha algumas frases consideradas inapropriadas para os padrões dos meios de comunicação convencionais. Aí os ouvintes começaram a pedir para tocar frequentemente essa música, tanto na Strick Som como nas rádios comerciais. Como era de se esperar, o posicionamento ético das rádios comerciais não deixava essa música entrar no ar, mas nós não nos importávamos com isso. Eu era muito fã da rádio Jovem Pan, principalmente do personagem dos Os Sobrinhos do Ataíde chamado Homem Cueca. A ideia era ter essa mesma linguagem para suprir as necessidades do público jovem no interior de São Paulo, pois a Jovem Pan aqui em Sorocaba tinha um sinal muito ruim. Não era uma cópia, e sim um referencial. Então a programação tinha esse viés. Até tinha personagens humorísticos dentro da Strick Som. A rádio tinha mascotes feitos por amigos. Basicamente esses personagens eram interpretados pelo Tato da Rádio Ocidental FM, um amigo chamado Anderson e o Eduardo Lopes. Essas pessoas faziam vozes caricatas, imitavam o Gil Gomes. Era uma coisa meio bagunçada, mas divertida. Era tudo de improviso, falava-se besteira, tocava-se música, colocava o ouvinte ao vivo pelo telefone. Para fazer isso, eu posicionava o telefone diretamente no microfone. Escutava a pessoa pelo rádio, e não pelo gancho do telefone. A falta de recursos tecnológicos exigia muita criatividade. Por volta do ano 2000 nós migramos para a rádio comunitária. Essa iniciativa ficou com o nome de uma das rádios que fazia parte da Conexão Jovem. Era a Rádio Comunitária Ocidental FM. Montamos essa emissora com um transmissor muito potente. O Eduardo Lopes foi um dos coordenadores da rádio. Devido ao meu trabalho, fazia somente uma programação a noite, das 20 às 22 7 horas. Nessa época era um negócio mais sério, tínhamos uma boa estrutura: carro na rua, link ao vivo, entre outras coisas. Porém a linguagem ainda era nos moldes que fazíamos na Strick Som.


(14): Durante o período de popularidade das rádios livres de Sorocaba, os donos dessas emissoras clandestinas começaram a se organizar para formar um movimento em prol da legalização desses meios alternativos de comunicação. Você participou dessa iniciativa?


F.N.M.: Tive conhecimento disso, mas já tinha outras preocupações e encarava o rádio mais como um passatempo. As responsabilidades mudaram com a idade. Nasci pirata e vou morrer pirata.


(15): Interessante você falar isso. Muitas vezes, o termo pirata está atrelado a uma conotação pejorativa. Você se importava em ser chamado de pirata?


F.N.M.: Acredito que, por não ter propagandas na programação, por não pagar impostos, por estar tirando a audiência das rádios comerciais, a Strick Som era considerada pirata. Acho que o que mais trouxe a fama pejorativa para as rádios piratas foi a ideia que a emissora clandestina causa interferência no sistema de comunicação das aeronaves e/ou atrapalha o rádio da polícia. O termo pirata não tinha relação com a intenção de lucrar financeiramente com essas rádios. Para nós era um entretenimento, fazíamos por amor. Quem estava atrás do ouro eram as rádios comerciais. Tem um livro que fala sobre essa ideia (MACHADO; MAGRI; MASAGÃO, 1986). Não tinha retorno financeiro nenhum. Ocasionalmente, ganhava um lanche de uma lanchonete que anunciávamos no rádio. Não era propaganda, somente comentávamos que lá era um ambiente legal. Por isso, a expressão pirata não incomodava. Outro ponto que reforçou a ideia de pirata como um termo legal para os jovens foi a estreia do programa TV Pirata da Rede Globo. Com um humor voltado para o público juvenil, a TV Pirata auxiliou na propagação do conceito de pirata como uma coisa rebelde, nova e bem-humorada.


(16): E qual o impacto do rádio na sua vida?


F.N.M.: Fiquei muito conhecido como Fran entre os jovens. O rádio era um meio de você conseguir paquerar e conhecer pessoas novas. Conheci minha esposa por causa da rádio. Ela era uma ouvinte. O rádio é parte da minha vida. Até hoje sonho que estou fazendo ou sintonizando a rádio. É uma chama que ainda está no coração. E tenho muito amigos que têm rádios piratas até hoje. Alguns migraram para as rádios web. Outros ainda utilizam o o espaço eletromagnético. Contudo, é um prazer que perdura até hoje em todos nós.



Referências COSTA, Mauro Sá Rego. Rádios Livres e rádios comunitárias no brasil. In: Revista Periferia, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, 2010, p.1-13. Disponível em: . Acesso em:14 abr. 2018. LOPES, Maria Immacolata Vassallo de. O rádio dos pobres: comunicação de massa, ideologia e marginalidade social. São Paulo: Loyola, 1988. MACHADO, Arlindo; MAGRI, Caio; MASAGÃO, Marcelo. Rádios livres: reforma agrária no ar. São Paulo: Brasiliense, 1986. NUNES, Marisa Aparecida Meliani. Rádios livres. O outro lado da voz do Brasil. 1995. 87 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Comunicação) - Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1995. TOMAZELA, José Maria. Pirataria conquista as ondas FM em Sorocaba. O Estado de S. Paulo, São Paulo, ano 112, n. 35.699, 29 jun. 1991. Interior, p. 27. 8 UM pirata nas ondas do ar. Veja Interior-SP. São Paulo, ano 24, n. 43, p. 5, out. 1991. TORRES, César Augusto Bernal. Metodología de la investigación: para administración, economía, humanidades y ciencias sociales. Bogotá (Colômbia): Pearson Educación, 2006. VILLELA, Lucas Braga Rangel. O teledocumentário Documento Especial como campo de memória na redemocratização. In: XXVIII Simpósio Nacional de História, 28. 2015, Florianópolis, SC. Anais... Florianópolis: UFSC, 2015. Disponível em: Acesso em: 30 abr. 2019


 
 
 

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