Primeiros Passos do Radiojornalismo no Brasil: O Lápis Vermelho de Roquette-Pinto
- bastidoresdasradios

- 9 de nov. de 2021
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Atualizado: 11 de nov. de 2021

Roquette Pinto, criador da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (Foto: Reprodução)
O jornal A Noite, em edição de 8 de setembro de 1922, noticiava, sucintamente, um dos acontecimentos mais importantes da história recente do País, a inauguração da primeira emissora de rádio no Brasil. Sob o título Um sucesso de radiotelephonia e telephone auto-falante, o jornal trazia o seguinte trecho:
"Uma nota sensacional do dia de hontem foi o serviço de rádio-telephone auto-falante, grande atrativo da Exposição. O discurso do Sr. Presidente da República, inaugurando o certamen foi, assim, ouvido no recinto da Exposição, em Nictheroy, Petrópolis e São Paulo, graças à instalação de uma possante transmissora no Corcovado e de aparelhos de transmissão e recepção, nos logares acima."
apud ORTRIWANO, 2003, p. 68
Conforme Ortriwano (2003), as transmissões recebidas com entusiasmo pela população brasileira e, em especial, pela elite intelectual do período, foram se perdendo ao longo do ano de 1922, caindo no desinteresse de seus ouvintes e da população.
Para essa autora, a questão central estava na inexistência de um sistema de transmissão regular que conseguisse abarcar produtores e ouvintes às potencialidades abertas pelo veículo, seja por conta da inexistência de outras emissoras, seja pela ausência de aparelhos transmissores que garantissem o impacto das transmissões para a população.
0“Simplesmente, saiu do ar”, acrescenta Ortriwano (2003), ressaltando, no entanto, que o veículo não estava “clinicamente morto”, já que ressurgiu, sete meses depois, com transmissões regulares através das ondas da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e de seu fundador, o antropólogo brasileiro Edgard Roquette-Pinto.
Foi do criador da primeira emissora de rádio com transmissões regulares do País que veio, inclusive, a relação pioneira que o veículo passaria a ter com o jornalismo, consagrado na forma como “selecionava” com um lápis vermelho aquilo que diria no ar (SOUZA, 2015, p. 96).
Veja recortes sobre a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, realizados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz):

"Radiophonia" - a nova coluna, com um texto inicial, assinado "RP", seguida de uma seção "Correspondência", e outra "Notícias".
O “lápis vermelho” de Roquette-Pinto era a forma como o diretor da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro selecionava, dos jornais impressos, aquilo que deveria ser “transportado” ao veículo sonoro. Ana Maria Barbosa comentou que se tratava de um hábito antigo do antropólogo, então transposto ao rádio quando, pela manhã, iniciava as transmissões sonoras no programa que intitulou Jornal da Manhã (SAINT-CLAIR, 1970, p. 41 apud ORTRIWANO, 2003, p. 69): na abertura do Jornal da Manhã, Roquette-Pinto “[...] lia os jornais que já havia assinalado com seu lápis vermelho (hábito antigo), comentando as principais notícias do dia, inaugurando, assim, o jornal falado (BARBOSA, 1996 apud ORTRIWANO, 2003, p. 69) – veja também Jung (2005, p. 20). O hábito de fazer anotações utilizando um lápis vermelho se repetiu em todos os seus documentos e apontamentos, conforme indica Souza (2015, p. 96), veja um exemplo:

Fonte: Souza, 2015, p. 96
Envelope onde se lê “Archivo Doc. Rec. Museu”, seguido do ano de 1926 e da rubrica de Roquette-Pinto; o que corresponde à certa organização dos documentos recebidos sobre o Museu Nacional, no ano de 1926, e que deveriam ser arquivados
As anotações de Roquette-Pinto serviam para que pudesse se orientar sobre o que falar para a sua audiência, improvisando acerca da notícia lida nos jornais matutinos e acrescentando novas informações sobre o país de origem, as personagens e os antecedentes do fato.
O Jornal da Manhã não era um simples noticioso, nem um modesto relato dos acontecimentos. Era o fato comentado, esmiuçado e interpretado com a autoridade do sábio. O Jornal da Manhã, da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, foi iniciativa jamais igualada. Por meio dele, o comentarista apreciava os acontecimentos nos noticiários dos jornais, lendo-lhes as manchetes e oferecendo um panorama inigualável de concisão, de realidade e de objetividade, como somente ele poderia fazê-lo [...] SAINT-CLAIR apud ORTRIWANO, 2003, p. 69
Uma das contribuições centrais do Jornal da Manhã foi o seu pioneirismo em realizar o “jornal falado” do Brasil, por meio do qual Roquette-Pinto trazia, diariamente, as principais notícias do jornal impresso com comentários e opiniões. No entanto, como o rádio ainda “engatinhava” no País, o programa não se estabeleceu na grade de programação da emissora, tendo levado, pelo menos, três anos para que os noticiosos sonoros se estabelecessem na grade da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e das demais emissoras que foram surgindo nessa primeira fase do veículo.
Foi somente no ano de 1926 que a programação da emissora conseguiu estabelecer uma grade com notícias sendo veiculadas em três horários distintos: manhã, tarde e noite; hábito que se repetiria por longos anos na grade de programação das emissoras brasileiras. No entanto, como nessa época ainda não existiam repórteres, os locutores se alimentavam dos recortes – marcados ou não com lápis – dos jornais impressos do País.
Roquette-Pinto criou o jornal de rádio brasileiro pioneiro, que se chamava Jornal da Manhã e trazia fatos comentados pelo próprio antropólogo, quem se converteu também no primeiro locutor e comentarista em nosso país.
Nessa fase inicial do jornalismo sonoro, Ortriwano (2003, p. 69) destaca casos nos quais a improvisação trazida pela leitura dos jornais impressos proporcionava “gafes” dignas de entrarem para as “abóboras celestiais” do rádio nacional. Sem qualquer tipo de elaboração prévia, as notícias eram lidas diretamente do jornal impresso, dando origem a leituras como “continua na página x”, ou então: “como se pode ver na foto ao lado” etc.
O termo
é uma referência direta à apresentação inicial do programa PRK-30, que estreou na rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, em 19 de outubro de 1944. Foi, sem dúvida, um dos mais importantes programas humorísticos produzidos no rádio brasileiro, conduzido por Lauro Borges e Castro Barbosa.
PRK-30 era o prefixo de uma suposta rádio pirata, onde dois speakers, Megatério Nababo D'alicerce – Castro Barbosa – e Otelo Trigueiro – Lauro Borges – apresentavam notícias de impagáveis correspondentes internacionais, cantores, declamadores etc., todos protagonizados pelos dois humoristas. O programa PRK-30 teve a sua origem no programa PRK-20 da Rádio Clube do Rio de Janeiro, com os mesmos apresentadores. Lauro Borges recebeu um convite irrecusável para se mudar à rádio Mayrink Veiga e lá criou a PRK-30, segundo o qual, com “10 mega-hertz a mais de potência que a anterior”.
Ainda conforme essa autora, muitas redações no período adotaram a estratégia do gillette-press para evitar gafes como essas, ordenando as notícias de forma mais coerente e lógica para facilitar a leitura pelo locutor. Cabe lembrar que nessa época apenas locutores liam os recortes dos jornais, já que não se podia considerar como uma estrutura para a prática jornalística no rádio.
Jornal Escrito Versus Jornal Falado Em 23 de fevereiro de 1932, a Rádio Record lançava o seu primeiro jornal falado. Desse modo e em parceria com os Diários Associados, que na época não possuíam nenhuma emissora, surgiu esse modelo, com características próprias de um jornalismo realizado com maior inclinação ao rádio. A falta de uma redação específica ao veículo é assim apontada por Moreira (1991, p. 26):
[...] o radiojornalismo brasileiro caracterizava-se pela ausência de um tratamento redacional específico para o veículo, ou seja: as notícias eram selecionadas e recortadas dos jornais e lidas ao microfone pelo locutor que estivesse presente no horário. Tesoura e cola eram, na época, os únicos recursos disponíveis para o jornalismo radiofônico.
Você sabia que os Diários Associados, conhecidos também como Condomínio Acionário dos Diários e Emissoras Associados, ou simplesmente DA, correspondem ao terceiro maior conglomerado de mídia do Brasil? Essa corporação já foi a maior da história da imprensa nacional, tendo sido criada em 2 de outubro de 1924 por intermédio de Assis Chateaubriand. Atualmente, o Grupo conta com 47 veículos de comunicação, sendo 8 jornais, 2 revistas, 12 rádios, 9 emissoras televisivas, 9 websites e outras 8 empresas, tendo como presidente o jornalista Álvaro Teixeira da Costa, e sede em Brasília, DF.
O termo “falado” marca uma clara oposição à estratégia de vincular as redações jornalísticas dos jornais impressos às embrionárias redações das emissoras de rádio. Era preciso criar uma linguagem própria para que o jornalismo de rádio pudesse se estruturar de forma a ampliar a audiência e evitar equívocos como os relatados por Ortriwano (2003). Buscava-se, efetivamente, a contradição ao modelo impresso, tal como aponta Jung (2005, p. 34), ao afirmar que o termo “falado” é mais do que um contraponto do rádio ao “jornal escrito”; seria a busca de sua própria essência. Foi em busca de uma identidade própria que no ano de 1932 a Rádio Record de São Paulo, em parceria com a Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, introduziu, de maneira despretensiosa, um conceito importante para o rádio: o casting.
Casting, no mundo de comunicação, consiste em selecionar profissionais para atuarem em eventos. A seleção de casting é importante, já que se tratam, comumente, de profissionais que atuarão diretamente com o público.
No período da Revolução Constitucionalista, a emissora teve um papel de destaque, liderando campanhas favoráveis à Revolução e organizando uma cadeia de emissoras de rádio para a propaganda desse movimento. Uma dessas campanhas, a “doe ouro para São Paulo”, buscava angariar fundos aos combatentes. A Rádio Record ainda se destacou com uma programação, conduzida por Monteiro Lobato, que trazia políticos para debaterem temas e darem palestras instrutivas e culturais em tal emissora.
A Revolução Constitucionalista de 1932, conhecida também como Revolução de 1932, ou Guerra Paulista, foi o movimento armado ocorrido no Estado de São Paulo, entre julho e outubro de 1932, que tinha por objetivo derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte.
No artigo A vida musical e social em Manaus na década de 1960, de Lucyanne M. Afonso, João Gustavo Kïenen e Renato A. Brandão, é apresentado um panorama da vida musical e social da cidade de Manaus na década de 1960 e a importância das rádios na constituição dessas identidades a partir da presença de vozes que representariam a imagem da própria emissora e região. Em um dos trechos, ao comentar sobre as rádios Baré e Difusora, destacam:
A Rádio Baré tinha um casting e a Rádio Difusora tinha o dela também, o nosso regional era o Mariuá, famoso em Manaus, era composto por violão, percussão, baixo, contrabaixo, piano, eram as Orquestras.
AFONSO; KÏENEN; BRANDÃO, 2016, p. 91
Ademais, a Rádio Baré foi uma estação brasileira sediada em Manaus, AM. Operava no dial AM, na frequência 1.440 kHz, além de ondas tropicais em 4.895 kHz. Já a Rádio Difusora do Amazonas é uma emissora brasileira sediada em Manaus, AM. Opera no dial FM, na frequência 96.9 MHz e em ondas tropicais de 4.805 kHz; afiliada à Super Rádio Tupi e Rádio Gaúcha, foi fundada em 24 de setembro de 1948.
Fonte: Wikimedia Commons Foi nesse processo que o papel de um radialista, César Ladeira (à esquerda), foi significativo tanto para a identidade em torno do movimento, quanto para a maturidade do veículo sonoro que pôde perceber a importância do casting para a sua audiência. Por meio de um boletim diário, que ia ao ar das duas às quatro horas da manhã, Ladeira conclamava os paulistas a apoiarem o movimento revolucionário. O radialista ficou conhecido como a “voz da Revolução” e acabou preso com a derrocada do movimento, em outubro de 1932. O serviço noticioso da Revolução acabou despertando as emissoras brasileiras para a importância do jornalismo sonoro, tendo se tornado a estrutura básica sobre a qual diversas outras rádios implantaram os seus noticiosos.
Sobre o papel do rádio na Revolução Constitucionalista de 1932 e a importância de César Ladeira, leia o artigo apresentado no XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, em 2012, por Antônio Adami, doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), professor titular e fundador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista (Unip).





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