Rádio Mulher, primeira emissora dedicada exclusivamente ao público feminino
- bastidoresdasradios

- 22 de mai. de 2020
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O ano era 1970. Por iniciativa do publicitário e empresário Roberto Montoro, foi inaugurada em São Paulo a Rádio Mulher, primeira emissora dedicada exclusivamente ao público feminino.

A Rádio Mulher era, acima de tudo, uma grande jogada de marketing baseada na experiência de Montoro, de quase uma década na direção comercial das rádios Nacional e Excelsior de São Paulo, ambas do Sistema Globo de Rádio e atualmente extintas. Ele sabia para quem falar, conhecia o público que ouvia rádio. Mas não há dúvida: era um avanço, embora tímido, em meio a tudo o que sempre foi oferecido à mulher como ouvinte e como profissional.
A programação era baseada no modelo que consagrou as tradicionais rádios AM no formato talk na capital paulista, como Globo, Record, Capital, Tupi, América: conversa amiga, ao pé do ouvido, conselhos sentimentais, rádio-teatro, simpatias, horóscopo, receitas, vida dos famosos, bastidores das novelas. É a receita de bolo que nunca falha quando o que está em jogo é a audiência popular. Nas duas maiores capitais do Brasil tem funcionado assim. Até hoje.

o entanto, o diferencial da Rádio Mulher foi a ousadia de colocar em campo uma equipe 100% feminina para transmitir jogos de futebol. A iniciativa foi pioneira e causou muito incômodo no meio. Se em 2020 percebemos discriminação no mais amplo sentido, potencializada pelas redes sociais, imagine como era para uma mulher o trabalho em ambientes essencialmente masculinos e machistas como o futebol, o rádio e o jornalismo?

A narradora da Rádio Mulher era Zuleide Ranieri Dias. Jurema Iara e Leila Silveira eram as comentaristas. Na análise da arbitragem, Lea Campos, a primeira árbitra de futebol de São Paulo. E, nas reportagens, Germana Garilli, Branca do Amaral e Claudete Troiano, que se notabilizou anos depois no comando de programas femininos de TV. No plantão esportivo, no estúdio, Lilian Loy, que se consagrou tempos mais tarde como apresentadora de programas populares no rádio AM paulistano, território até então dominado pelos homens.

Mas, apesar do pioneirismo da iniciativa, a Rádio Mulher não foi muito longe. A equipe esportiva não contava com a simpatia do meio. A ousadia em ambientes conservadores por essência também não se traduziu em bons índices de audiência. E, como consequência, a falta de anunciantes que acreditassem na proposta acabou por dissolver o projeto. A Rádio Mulher sobreviveu por mais alguns anos. Ficou no ar até o final da década de 1980, embora a proposta inicial de uma programação essencialmente feminina tenha se perdido antes disso, no final dos anos 1970, quando o gênero sertanejo passou a dominar o segmento popular do rádio de São Paulo.





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