O Rádio nos Contextos da Primeira e Segunda Guerras Mundiais
- bastidoresdasradios

- 5 de nov. de 2021
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No início das hostilidades da Primeira Guerra Mundial, os principais cabos de comunicação dos países da Europa em conflito tinham sido cortados ou desligados. O contato com o mundo exterior para o envio de mensagens, via código Morse – cabe lembrar que o rádio “falado”, ainda que inventado em 1906, não se constituía em um sistema broadcast – não mais poderia acontecer, de modo que o contato de diversos países do Continente europeu – especialmente Alemanha, Rússia, Inglaterra e França – dependeria, a partir de então, da tecnologia de transmissão através das ondas de rádio.
Broadcast significa transmitir, sendo um termo formado pela junção das palavras broad – largo, ou em larga escala – e cast – enviar, transmitir, projetar. Trata-se da transmissão de informações usando antenas ou sinais eletromagnéticos para muitos receptores ao mesmo tempo.

Uma estação de transmissão de rádio portátil do exército dos Estados Unidos na Alemanha, em 1919
No início dos conflitos da Primeira Guerra Mundial, a Europa contabilizava dezessete estações governamentais de rádio na Alemanha, quatro no Império Austro-Húngaro, dezoito na França, 28 na Rússia e 47 na Inglaterra, cuja função acabaria sendo a de suprir lacunas deixadas por cabos danificados ou inoperantes; mas, com o início dos confrontos, a sua importância se tornou mais do que estratégica.
Além das estações físicas, as companhias de comunicação via ondas de rádio desenvolveram equipamentos “portáteis” que poderiam ser montados de maneira célere, colaborando para a comunicação entre as frentes de batalha e as centrais de comando da Guerra.
A mais célebre aplicação da comunicação sem fio durante a Primeira Guerra Mundial foi a sua utilização nos aviões e dirigíveis. Com equipamentos pesando cerca de 45 kg, os aviões franceses e belgas foram equipados com aparelhos simples e compactos, capazes de transmitir informações em tempo real para as estações receptoras que, em tempos de guerra, ficavam sob o comando dos países beligerantes. Nesses casos, a engenharia de transmissão utilizava a própria estrutura metálica dos aviões e dirigíveis como antenas. O alcance de transmissão desses aparelhos chegava, em alguns casos, a 100 km de distância, espaço suficiente para o sobrevoo das linhas inimigas.
Em pouco tempo, devido ao conflito armado, a tecnologia de transmissão de informações deu um salto significativo, o que permitiu a sua popularização. Assim, saído da Primeira Guerra Mundial, o rádio surgiu como o primeiro grande veículo de comunicação de massa e experimentou, nas décadas seguintes, um incremento no número de estações de transmissão, receptores e linguagens. Esse incremento fez com que a tecnologia de transmissão de sons chegasse à Segunda Guerra Mundial como o mais importante meio de comunicação, usado tanto para levar notícias e propagandas, quanto arma para a propaganda ideológica, estimulando e orientando populações.

Transmissor sem fio norte-americano durante a invasão da Normandia, na Segunda Guerra Mundial (1944)
Essa percepção sobre o impacto do veículo radiofônico fez com que diversos países se preocupassem em relação à orientação de suas populações durante a Segunda Grande Guerra, seja para evitar a ascensão de regimes totalitários, seja como instrumento de orientação às populações. Conforme Dines (2009), as nações envolvidas direta e indiretamente com a Guerra rapidamente começaram a montar emissoras públicas fortes para enfrentar as ideias ou ideologias totalitárias, ainda que, tal como o caso do Brasil, alguns países flertassem com as ideias dos regimes totalitários.
A encampação da Rádio Nacional, em 8 de março de 1940, no governo de Getúlio Vargas demonstra o poder repressor e autoritário de seu governo, não permitindo – ou mesmo interferindo contra – a liberdade de imprensa no País. A rádio foi usada por Vargas como o seu principal canal de divulgação política.
No Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial, destacou-se a importante atuação do Repórter Esso, programa radiojornalístico que foi um dos marcos da história política do País, levando notícias sobre a Guerra para a sociedade brasileira. Ainda conforme Dines (2009), o Repórter Esso foi resultado do que chamou de “política da boa vizinhança” movida pelos Estados Unidos para aproximar o Brasil dos aliados.
Patrocinado pela multinacional Esso do Brasil, o programa modificou de forma definitiva um gênero radiofônico que ainda “engatinhava” no País, o radiojornalismo. O Repórter Esso foi revolucionário, permitindo maior maturidade ao jornalismo sonoro no Brasil, consolidando uma trajetória já marcada por inovações no fazer jornalístico sonoro.

Anúncio da estreia do Repórter Esso na Rádio Farroupilha (jul. 1942)
Do ponto de vista estrutural, a Segunda Guerra Mundial trouxe grandes transformações ao veículo sonoro, especialmente no Brasil – no que se refere ao jornalismo sonoro, tal como veremos posteriormente. Do ponto de vista político, o informativo produzido pela agência de notícias United Press International, tendo por conselheiro o Office of Inter-American Affairs – órgão criado na década de 1940 para promover a cooperação interamericana, especialmente em áreas comerciais e econômicas – tinha em seu comando o milionário Nelson Aldrich Rockefeller, cuja família controlava a Standard Oil Company of Brazil, mais tarde conhecida como Esso Brasileira de Petróleo.
A United Press International (UPI) é uma agência internacional de notícias, fundada em 1907 e com sede nos Estados Unidos da América. Foi pioneira em muitas áreas na cobertura e distribuição de notícias em todo o mundo.
Livros História do rádio no Brasil: O livro de Magaly Prado não apenas resgata uma parte importante da história do veículo, como também destaca e reforça os principais momentos e profissionais que encantaram plateias e influenciaram diretamente a formação cultural brasileira, tendo promovido elementos que atualmente fazem parte da cultura nacional, tal como no caso das telenovelas. Resgata momentos fundamentais da história do rádio e que marcaram as comunicações no Brasil.
O Repórter Esso: a síntese radiofônica mundial que fez história: O Repórter Esso, noticioso sucinto que revolucionou primeiro o rádio e depois a televisão, representa até hoje um capítulo fundamental no Jornalismo. Com formato exclusivo, critérios especializados na seleção das informações e locução vibrante, a síntese profissionalizou as rotinas produtivas e desenvolveu na população o hábito de ouvir notícias. Resultado de dez anos de pesquisa, esse livro apresenta uma análise crítica das notícias, além dos depoimentos de historiadores, radialistas e jornalistas, mostrando que o noticioso não ficou livre de interesses políticos, sociais e econômicos que compuseram o cenário global das décadas de 1940, 1950 e 1960.
Vídeo Assista à última transmissão do Repórter Esso. Há aqui recortes da última edição, originalmente veiculada em 31 de dezembro de 1968, transmissão sonora derradeira desse noticioso na Rádio Nacional do Rio de Janeiro.
Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMISSORAS DE RÁDIO E TELEVISÃO. História do rádio. Portal San Francisco, [20--]. Disponível em: <https://www.portalsaofrancisco.com.br/historia-geral/historia-do-radio>. Acesso em: 10 ago. 2018. BOMEY, H. M. Quando os números confirmam impressões: desafios da educação brasileira. Rio de Janeiro: CPDOC, 2003. Disponível em: <https://cpdoc.fgv.br/producao_intelectual/arq/1354.pdf>. Acesso em: 15 set. 2018. DINES, A. A mídia vai à guerra. Observatório da Imprensa, n. 553, 3 set. 2009. Disponível em: <http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/a-midia-vai-a-guerra>. Acesso em: 10 set. 2018. MARTINO, J. P. Technological forecasting for decision making. 2th ed. New York: North-Holland, 1983. ORTRIWANO, G. A informação no rádio. Os grupos de poder e a determinação dos conteúdos. São Paulo: Summus, 1985. PAGNO, M. Os critérios de noticiabilidade na construção do programa Esporte & Cia, da Rádio Gaúcha. 2015. Dissertação (Mestrado em Jornalismo)-Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, 2015. Disponível em: <https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/125984/000971976.pdf?sequence=1>. Acesso em: 20 set. 2018. ROBERTO Landell de Moura – história. Superinteressante, 31 out. 2016. Disponível em: <https://super.abril.com.br/historia/roberto-landell-de-moura>. Acesso em: 10 ago. 2018. ROCHA, J. F. de M. O conceito de “campo” em sala de aula – uma abordagem histórico-conceitual. Revista Brasileira de Ensino de Física, São Paulo, v. 31, n. 1, abr. 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-11172009000100013>. Acesso em: 11 set. 2018.





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